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domingo, junho 10, 2007

Monica - escrevendo para o blog...


De: Monica Alvarenga

A LEI DO SILÊNCIO – exercício...
Estava escondida atrás da cômoda de caixa retangular e quatro gavetões do século XVIII.
A natureza dúbia, deveras instável, espantava alguns amantes de minhas formas.
No entanto, esperava a hora da revelação com certo sabor de vingança.
Branca e imponente, confiava que minha qualidade impressionasse o marido a tal ponto, que nada impediria que fosse colocada no mesmo patamar das outras.
Assim, observava maliciosa o encadeamento da hora que se aproximava.
O chá quente exalava um cheiro de iguarias orientais que inundava todo o ambiente da sala, convidando o casal para o deleite daquele momento. Ela o olhava fixamente. Ele hesitou, levou a xícara à boca e logo cuspiu seu conteúdo como se adivinhasse o sabor amargo do que ela lhe oferecia.
Sua mão deslizou até a bandeja de prata cuidadosamente arrumada, pousou a xícara de porcelana japonesa e virando-se para a mesinha chippendale onde seu colt repousava, atirou. Foram cinco tiros, a maioria fora do alvo certeiro.
Parte de minha família, fora atingida no terceiro tiro e espatifara-se no chão.
Quando percebeu que a mulher finalmente se imobilizou, voltou até a bandeja e colocou dois cubos de açúcar na xícara de chá meio frio e satisfeito, tomou todo o seu conteúdo.
Passou a examinar as nódoas que o sangue provocara no tapete, levantou os olhos e observou os estragos que os tiros errados haviam causado nos objetos da casa.
Estava particularmente preocupado com as faianças que conseguira obter de um comerciante italiano nos signos de Peixes, Sagitário, Leão, Touro, Virgem e Capricórnio, que em sua maioria ainda repousavam na prateleira.
Na meia hora seguinte, recolheu os cacos da estatueta atingida, prevendo uma possível reconstituição.
Neste momento receei ser descoberta.
Algum tempo depois a campainha tocou timidamente e ele foi abrir a porta. Era o comissário de polícia da região que atendia um pedido do vizinho da frente que reclamara do barulho àquela hora da noite.
Mal pude acreditar no que ouvia, o comissário não se importava em ver a mulher no chão, eram os objetos da casa que chamavam sua atenção.
Especialmente as faianças. Meu coração tremeu.
Não queria ser achada. Não agora com ela morta.
Não havia sentido para mim uma vez que foi ela quem me descobriu, que foi ela quem me salvou das mãos de um colecionador estúpido e egóico.
Não, não queria mais pertencer àquela família.
Salvo os comentários ridículos que fui obrigada a ouvir sobre os objetos que sobrepunham a importância daquela mulher ali, deitada, ensangüentada, me interroguei sobre até que ponto gostaria de permanecer imóvel, invisível numa casa que acabara de se desmanchar sob meus olhos.
Numa casa que eu sentia, não mais me pertencia.
Não, não queria mais fazer parte daquela coleção, não seria eu, italiana legítima, do signo de gêmeos que iria satisfazer a libido daquele sádico guloso, gordo e balofo.
Sacudi-me e dei-me a ver.
Espatifei-me no chão ao lado do corpo daquela que soube admirar uma faiança legítima que costumava dar sorte aos casais.

7 comentários:

monicaalvarenga disse...

...há que se dar o devido crédito...
o exercício lá do título não é mera retórica poética e sim exercício mesmo em cima da obra de Victor Giudice, romancista e cronista carioca... fiz algo tipo brincando em cima daquilo... que ele me perdoe...rs...bjs

Anônimo disse...

Gosto. Gostei.
Gostei da foto.
Eu gosto dessas Alvarengas...

André

valter ferraz disse...

Marília, passei prá te dizer olá.
Também fiquei sabendo por aí que vc fica "meio constrangida" de comentar lá no perplexoinside.
Que é isso, Companheira?
Lá não tem nada de mais não, é um bloguinho de nada, sem compomisso e nem é cjeio de nove horas. É só um cantinho prá chamar de meu. Uma coisa assim, prá gente conversar e falar de tudo.
Apareça sempre por lá e não estranhe minha pouca assiduidade, sou meio desligadão mesmo.
Fique bem,
Um beijo grande

Moura ao Luar disse...

Besitos

Vivendo deixando a vida me levar... disse...

Nossa, que lindo... adorei romântico meio melancólico... Adoro ler issu!!!

bjoss

marilia disse...

VALTER...QUE FOFOQUEIRA QUE A NOSSA ANINHA ESTÁ ME SAINDO...RSSSSSS
VOU LÁ SEMPRE, MAS FICO SEM GRAÇA DE COMENTAR....
VOU MUDAR, TENTAREI VENCER A BARREIRA!!!!!RSSSSSSS
BJOS GRANDES, E MUITO OBRIGADA PELA VISITA!

O Meu Jeito de Ser disse...

Marília minha querida, eu juro. Oh! de dedinhos cruzados, que não disse nada.
Mas, ele lê também o meu blog né?
Sem contar que na cama, não existe segredo.
Beijo menina.